Sou o que chamam de bibliófilo. Possuo cerca de dez mil livros, uma parte deles acomodo no meu escritório, visível às visitas; a outra parte, fica num cômodo adaptado da minha casa para servir exclusivamente como biblioteca, onde somente eu acesso por conta da fragilidade dos volumes guardados ali. Por esse motivo óbvio, sempre andei muito pelas avenidas, ruas e ruelas do Centro do Rio, desde a década de 80, visitando livrarias e sebos à procura de novidades literárias e exemplares raros. Ontem, quarta-feira, após seis meses sem pisar na região devido à pandemia, retornei para pegar um exemplar raro que eu havia encomendado num sebo da Av. Marechal Floriano. Para mim, o retorno ao Centro, após esse hiato de distância, foi uma experiência melancólica.
Há algum tempo que vinha citando aqui a decadência cada vez mais visível do Centro da Cidade. Em alguns pontos, quando o relógio da Central marcava 20h, um deserto silencioso e assustador tomava conta de ruas e bares em algumas áreas. A crise econômica mostrava seus primeiros sinais cruéis no coração financeiro do Rio. Veio a pandemia, o home office, o caos financeiro e o Centro se comportou como quem recebe uma covarde punhalada pelas costas, tombou sem ter tempo de pedir misericórdia.
Ao pisar no Centro carioca após esses seis meses de ausência, caminhei por uma Av. Marechal Floriano semideserta, uma Av. Rio Branco moribunda e com pouquíssimos transeuntes às 15h. Passei diante da MV30, da 502, puteiros com fachada muda como cadáveres à espera do enterro e de um mísero epitáfio que justificasse o tempo em que existiram. Não pulsam mais. O parco comércio aberto ostentava vendedores meditativos à porta das lojas, semblantes preocupados e infelizes. Lanchonetes vazias, bares e restaurantes abandonados, tudo uma tristeza. Fiquei chocado.
Sobe as termas, concordo com o parecer cirúrgico de um estimado amigo que entende do assunto, elas ainda estão abertas apenas para manter o ponto. Acumulam prejuízo aguardando o fim da tragédia comercial e uma improvável recuperação do capital. Talvez, o fim demore mais para chegar do que a capacidade de sobrevivência que esses estabelecimentos possam ter.
O que me espanta é observar casas insistirem em valores que já não eram condizentes com a realidade antes da pandemia, mantê-los agora é manifestação de delírio mercante de quem comanda a casa. A 502, que antes da pandemia abria às 17h, já estava aberta às 15h, provavelmente numa tentativa inútil de diminuir as perdas. No pós-pandemia, todas as termas do Centro serão vítimas da mesma praga que atingiu as más profissionais do sexo, o mau atendimento que prestavam antes da catástrofe se refletirá quando a atual situação se normalizar. Quebrou-se o hábito dos clientes que frequentavam os bordeis, todos buscaram outros caminhos de consolo, estão mais conscientes dos riscos à saúde e não foram fidelizados pelos gestores de nenhuma casa. A recuperação será lenta e dolorosa para quem não fechar as portas, exigirá conexão com a nova realidade, com o novo normal. Mais do que trabalho, os novos tempos exigirão cérebro. O que fica do meu recente e breve passeio é que tive a sensação de estar caminhando num vácuo, no Centro do nada.
Há algum tempo que vinha citando aqui a decadência cada vez mais visível do Centro da Cidade. Em alguns pontos, quando o relógio da Central marcava 20h, um deserto silencioso e assustador tomava conta de ruas e bares em algumas áreas. A crise econômica mostrava seus primeiros sinais cruéis no coração financeiro do Rio. Veio a pandemia, o home office, o caos financeiro e o Centro se comportou como quem recebe uma covarde punhalada pelas costas, tombou sem ter tempo de pedir misericórdia.
Ao pisar no Centro carioca após esses seis meses de ausência, caminhei por uma Av. Marechal Floriano semideserta, uma Av. Rio Branco moribunda e com pouquíssimos transeuntes às 15h. Passei diante da MV30, da 502, puteiros com fachada muda como cadáveres à espera do enterro e de um mísero epitáfio que justificasse o tempo em que existiram. Não pulsam mais. O parco comércio aberto ostentava vendedores meditativos à porta das lojas, semblantes preocupados e infelizes. Lanchonetes vazias, bares e restaurantes abandonados, tudo uma tristeza. Fiquei chocado.
Sobe as termas, concordo com o parecer cirúrgico de um estimado amigo que entende do assunto, elas ainda estão abertas apenas para manter o ponto. Acumulam prejuízo aguardando o fim da tragédia comercial e uma improvável recuperação do capital. Talvez, o fim demore mais para chegar do que a capacidade de sobrevivência que esses estabelecimentos possam ter.
O que me espanta é observar casas insistirem em valores que já não eram condizentes com a realidade antes da pandemia, mantê-los agora é manifestação de delírio mercante de quem comanda a casa. A 502, que antes da pandemia abria às 17h, já estava aberta às 15h, provavelmente numa tentativa inútil de diminuir as perdas. No pós-pandemia, todas as termas do Centro serão vítimas da mesma praga que atingiu as más profissionais do sexo, o mau atendimento que prestavam antes da catástrofe se refletirá quando a atual situação se normalizar. Quebrou-se o hábito dos clientes que frequentavam os bordeis, todos buscaram outros caminhos de consolo, estão mais conscientes dos riscos à saúde e não foram fidelizados pelos gestores de nenhuma casa. A recuperação será lenta e dolorosa para quem não fechar as portas, exigirá conexão com a nova realidade, com o novo normal. Mais do que trabalho, os novos tempos exigirão cérebro. O que fica do meu recente e breve passeio é que tive a sensação de estar caminhando num vácuo, no Centro do nada.