Carnage escreveu:Compson escreveu:Carnage escreveu:Qual é a função social do Pânico?
Gastei muito tempo tratando de um tema, literalmente, de merda, portanto desenvolvo depois. Mas em poucas palavras, a função social do Pânico é ser um anti-Fantástico, ou seja, desconstruir até o fim as técnicas pelas quais a TV produz ilusões de realidade ou aplicá-las em contextos absurdos.
Gostei. Dá um bom tema pra desenvolver!
Em geral, esse "efeito de realidade" é conseguido pela produção e edição. Por exemplo, um jornal quer saber o que o "povo" acha da queda dos juros. Vai entrevistar 20 pessoas aleatoriamente, umas 15 não vão achar nada, ou vão ser favoráveis por inércia; 4 são favoráveis e dão motivo; 1 vai ser contra. Aí colocam lá a opinião de um cara a favor e um contra, dando a impressão de que a opinião pública está dividida. Ou então colocam a favor um sindicalista falando abobrinha e contra um economista sentado na frente de um monte de livros.
Enfim, o "efeito de realidade" é produzido quando se apaga do produto final, por meio da edição, as marcas da produção.
Nesse sentido, o Pânico é o único programa em que os produtores e editores aparecem como personagem sério (o produtor do Faustão aparece, mas apenas como subordinado do apresentador; o Faustão nunca aparece tomando uma comida do diretor da Globo; a Sabrina, o Bola, o Vesgo aparecem - o Emílio é exceção, não sei se por ser egocêntrico ou se porque é necessário manter pelo menos uma figura de credibildiade para fazer certos tipos de comerciais).
Outro exemplo são os usos do "jornalismo investigativo" para tratar de temas esdrúxulos. Quando a Bolina foi para a Fazenda, inventaram que havia uma traidora que sabia do convite e não avisou a direção. Aí gravaram interrogatório, usaram detector de mentira, consultaram um cara de leitura corporal, enfim, todas essas picaretagens que os programas "jornalísticos" usam, só que aplicadas a um tema desqualificado por princípio (ninguém achava realmente importante saber quem era a traidora, o importante era o desenrolar da narrativa, não seu pretexto inicial).
Outra coisa é expor todas as relações extra-programa. Se há um boato de que um diretor da novela brigou com um ator na Globo, sempre fica aquela coisa hipócrita, um personagem some do nada, ou todo mundo aparece se abraçando. No caso do Pânico, os caras põe os envolvidos pra brigar, estimulam a armação de intrigas etc. É claro que é tudo meio falso, mas a graça é justamente essa: se aproveitar da imprensa dita "séria", para criar uma situação em que seja impossível discernir o que é "reality" e o que é "show".
Se a TV séria zomba "respeitosamente" da inteligência do telespectador, o Pânico o faz sem nenhuma cerimônia. Resta saber se a finalidade é crítica ("zombamos descaradamente da sua inteligência para você ver o quanto são dissimulados os que fingem não zombar") ou cínica ("zombamos descaradamente da sua inteligência porque você é tão burro que não merece nem uma dissimulação")... De todo modo, me parece original!