Desafiando a chuva fria chegamos ao prédio encharcados. Havia uma fila de bolivianos, africanos e nordestinos a espera do famigerado elevador. Com seus rostos de miséria e suas roupas molhadas pareciam garimpeiros da serra pelada famintos por "ouro". Uns mais sossegados outros inquietos estavam ali aguardando o trem da morte rumo ao inferno.
Diante dessa visão do purgatório abandonamos a idéia de esperar o elevador e subimos as escadas. No terceiro andar já perdi o folêgo, a idade é foda, já não sou mais o mesmo. Dei um tempo, respirei fundo, arrumei o cabelo e subi olhando as caras de desânimo das quengas espalhadas pelos corredores e escadas. O neurônio, mais em forma do que eu, passou minha frente e seguiu até o sétimo onde paramos para tomar uma cerveja ao som de pagode e forró. O neurônio me pareceu incomodado com alguma coisa, eu percebi aflição no cara. Talvez ele estivesse pensando a mesma coisa a meu respeito. Trocamos meia dúzia de palavras entre um e outro gole de cerveja gelada. Nossas aflições se diluiam a cada gole. Um esbarrão e o copo pela metade veio a baixo se espatifando em pedaços no chão. Foi a gota da àgua que faltava. Uma vagaba balbuciou algo que não entendi muito bem. Saquei a grana da carteira, paguei para gerentinha peituda que parecia mau humorada e aborrecida. Peguei o troco e então vazamos dalí.
Descemos as escadas bem mais ligeiro do que subimos, e a cada degrau que descíamos e por cada andar pelo qual passávamos o que víamos era um show de horrores. Homens e mulheres pertencentes a um universo paralelo, a uma outra realidade, a uma outra dimensão. Que gente feia! Meu Deus! Cruz Credo! Onde está o titio para nos recepcionar?? Para nos apresentar sua beldades advindas das catacumbas do além??? Para nos trazer suas gulosiemas cobertas de enxofre. Seu petiscos de carne de rato de esgoto e seus amendoins de barata viva. Se esse tio, por acaso existir, ele seria o próprio Satã:evil: , pensei.
Vazamos dali em direção ao nosso objetivo inicial, o Teatro Orion.
Agora só pensava na japonesa Vanessa Kiasy e em encontrá-la no Orion dançando peladinha. Procurando, com isso, ocupar minha mente com imagens bem mais agradáveis do que aquelas vistas até então.
A chuva já havia cessado mas o céu continuava encoberto por nuvens cinzas e negras trazendo um final de tarde promissor. No caminho disse ao neurônio:
"Neuras, sabe a Cristiane do Orion?" ele "Não, qual Cristiane?"
"Uma gp do Orion que eu traçava na faixa? Tá postado no fórum."
ele "Nem sei" "Essa Cristiane esteve na Suiça por um tempo, eu saí com ela antes dessa viagem. Mas agora ela está de volta ao Brasil e pelo que parece ao Orion também".
ele "Sei e daí?" "Confesso que sinto saudades dela...

Entramos no Orion. O neurônio foi ao banheiro eu vireia direita indo em direção as esacadas que dão acesso ao teatro. Mal pisei o primeiro degrau e lá estava ela: Cristiane. Encostada no balcão do bar.
Ela me chama.
"Oi, a quanto tempo" "É a quanto tempo" "Vc está bem..."
"Aceita uma bebida ?" "Sim, aceito"
Subimos. Nisso já havia perdido o meu amigo de vista. Pedi a merda do genérico com energetico e ficamos conversando futilidades. Enquanto isso pude observar que ela continuava a falsa magra de sempre com os peitões siliconados de antes da viagem bem escondidos por sob a blusa. Barriguinha zero cal e um rosto bonito. Apesar da cara de sono de quem passou uma noitada de farra e fodas. Conversa vai conversa vem e nisso a Vanessa Kiasy já fazia seu show. Entretido com a Cris nem prestei muita atenção ao show da japa gostosa.
Encontrei o neurônio sentado na última fileira na cadeira do meio totalmente solitário. Quem via ele ali desolado e alheio, mau poderia imaginar que dali a instantes a sorte sorriria para o cara.
A Cristiane reclamava do mau gosto musical das gps atuais da casa dizendo não aguentar mais ouvir tanto forró e pagode.
"Porra! então pq vc não dança como nos velhos tempos?" "Bota um rock, tira a roupa e faz o povo acordar" "Acabando com esse tédio"
ela "Vc quer ver eu pelada, né"
"O que vc acha?!"
ela "Eu não danço mais, já foi-se o tempo"
"então pode tirar a roupa aqui que nem aquela menina ali atrás, não precisa tirar pros outros"
ela "Aqui não..."
"quanto vc tá cobrando o programa?"
ela "100, mas hoje eu tô de chico "
"Tá bom..."
A Vanessa Kiasy desceu do palco e começou a subir pelo corredor passando pela platéia. Chegando ao final do corredor ela virou a direita para fazer o retorno e voltar ao palco, antesa passando por trás da última fileira, exatamente onde estava o neurônio. A japa, vendo meu amigo largadão e isolado ali resolveu fazer uma caridade. Chegou perto do cara estendo a pernas em volta do pescoço do neuras, como se estivesse subindo num cavalo


Depois dessa terminei de beber aquela merda e chamei a Cristiane para sairmos fora dali e irmos num bar da esquina. Ela topou. Avisei meu amigo que voltaria logo. O cara estava em transe

Saímos do Orion e fomos num bar que tem na rua Vieira de Carvalho, rua de gays


Pedimos uma cerveja. E enquanto esperarávamos pude observar que na na mesa da frente havia dois barbudos esquisitos. Logo eles se abraçaram e começaram um ardente beijo

"Isso é normal aqui" ela disse.
Vacilei por uns segundos e pensei "fodam-se as bichas, não estão me incomodando e além do mais aqui é território deles" "E tb eles vão dar o cu deles e não o meu, então que se foda"
Além do mais não tenho preconceito. Cada um é feliz do jeito que lhe convém. Aprendi a respeitar as diferenças. Mesmo por que não era a primeira vez que via aquilo, aquela região próxima ao Orion fica repleta de viados durante a noite. Resolvi desencanar da bibas.
"Cris, vc já foi em casa de swing?"
ela, com olhar de safada disse "Já, com um japa. Lembro que enquanto ele transava comigo, ele sentado no sofá e eu por cima dele, uns urubus ficavam em volta passando a mão nos meus peitos e em tudo quanto que era lugar hahahahahaha" "Os caras tavam doidões, alguns batiam punheta" "Lembro que depois que o japa terminou, os caras fizeram fila
pra me comer, mas como eu tava meio chapada resolvi sair fora e deixar
os caras na mão hahahhahaha"
Ouvindo essas palavras fiquei com a barraca armada. Só desanimei depois que olhei pra frente e vi os dois bichas barbados ainda no maior amasso.
"Eu nunca fui nisso, tô a fim de ir um dia. Vc vai comigo?" ela "vou"
Terminei a bebida, era minha segunda cerveja no dia. Para mim era mais do que sufuciente. Não gosto de beber.
"Vamos?" ela "Sim"
Na rua o ar fresco da noite e das pessoas tomava conta. Apressei os passos fugindo dali. A Cristiane procurou acompanhar meu ritmos com seu salto alto, encontrado uma certa dificuldade, é claro.
Diminui os passos e olhei ao meu redor. A Cristiane rebolava sua bunda pra lá e pra cá sem chamar atenção daqueles caras. Dali a minutos estávamos de volta ao Orion. Onde encontrei meu amigo desolado no mesmo canto. O forró rolava solto. A platéia não parecia empolgada.
No que será que aquelas pobres almas estariam pensando? No que será que meu amigo estaria pensando? No que será que a Cristiane estaria pensando?
No que eu estava pensando?
Em nada. Simplesmente em nada!